O Que Há de Errado com as Criptomoedas? Parte I

O Que Há de Errado com as Criptomoedas? Parte I

Traduzido do inglês

Lembra como o mercado cripto parecia fácil e gratuito há dez anos? Sem barreiras, sem obstáculos. Você podia trocar uma moeda por outra, ou negociar cripto por dinheiro fiduciário, sem problema. Ir no sentido oposto — fiduciário para cripto — era um pouco mais complicado, mas principalmente por causa do lado fiduciário. Instituições financeiras tradicionais gostam de complicar as coisas com cheques, limites e restrições.

Hoje, as criptomoedas são tão restringidas — se não mais — que o fiduciário. E grande parte dessas restrições vem dos governos.

Então por que estão tornando nossas vidas mais difíceis? Tudo estava funcionando bem! Quem as criptomoedas prejudicaram? O que há de tão ruim nas criptomoedas que precisam ser proibidas ou restringidas?

Vamos ver como governos ao redor do mundo respondem a essa pergunta.

Riscos Econômicos

A linha oficial diz algo assim: criptomoedas são ativos especulativos, o que os torna muito voláteis e potencialmente perigosos para a economia. Se bancos ou governos mantivessem reservas significativas em cripto e o mercado de repente desabasse, isso poderia desencadear um efeito dominó e arrastar todo o sistema financeiro. O BIS fez esse argumento, e o FMI também — especialmente quando El Salvador tornou o Bitcoin moeda legal e ofereceu uma conversão garantida pelo governo entre BTC e USD.

E, com razão, há algo nesse argumento:

  • Imagine uma transação importante — digamos, um acordo estatal — paga em cripto, e apenas horas depois o preço cai 10–20%. Esse acordo pode desmoronar.
  • Agora inverta: o preço dispara. O Estado ainda consegue garantir uma conversão BTC–USD às taxas de mercado? De onde virão todos esses dólares?

Sim, reservas em cripto provavelmente representam risco para governos e grandes bancos. Mas por outro lado — os ativos que eles detêm atualmente, como dólares ou ouro, são realmente tão estáveis?

  • Nos últimos quatro anos, o preço de uma garrafa de água na minha loja local dobrou em termos de dólar. Meu prato favorito em um restaurante próximo quadruplicou. Não foi a comida ou a água que ficou mais cara — foi o dólar que perdeu valor.

O gráfico do preço do ouro basicamente entrou em parábola.

gráfico XAU/USD

Claro, esse tipo de flutuação não chega nem perto do que vemos em cripto, onde oscilações de dois dígitos em um único dia são normais. Então sim — volatilidade é uma crítica justa.

Faz sentido que governos e grandes instituições restrinjam cripto em suas reservas. Mas e as pessoas comuns? Por que impor restrições a elas?

Proteger as Pessoas de Si Mesmas

Se alguém como você ou eu guarda poupança em cripto e o preço de repente despenca, não haverá um colapso financeiro nacional. Mas um colapso pessoal pode ser bem possível.

Uma pessoa — ou uma família inteira — pode ficar sem dinheiro para necessidades básicas e acabar dependendo de assistência social. Isso é um custo extra para o Estado — e nenhum governo gosta de pressão adicional no seu orçamento.

Então a lógica diz: se alguém não entende os riscos, provavelmente não deveria brincar com ativos arriscados. Por isso algumas autoridades recomendam limitar o acesso a cripto para pessoas sem a experiência ou o conhecimento necessários.

Isso faz certo sentido. Mas empreendimentos comerciais também não são arriscados? Eles falham o tempo todo — e ainda assim os governos geralmente não proíbem o empreendedorismo. E loterias ou jogos de azar? Loterias muitas vezes são administradas pelos próprios governos!

Então sim, esse argumento é honesto e tem lógica. Mas se o seguirmos até a conclusão, então há muitas outras atividades arriscadas que também deveriam ser restringidas.

Impostos

Evasão fiscal é outro motivo sólido que os governos citam.

Cripto permite que pessoas ganhem e gastem dinheiro fora do sistema tradicional. Você pode armazenar riqueza fora do sistema bancário, além do alcance de congelamentos e apreensões tradicionais de ativos. Isso desafia sistemas de longa data de monitoramento de renda e cobrança de impostos. E sejamos realistas: governos são enormes burocracias que não se adaptam facilmente. Preferem proibir o que não conseguem controlar.

Por isso, em alguns países, em vez de proibições completas você encontra coisas como:

  • alíquotas de imposto absurdas;
  • impostos por transação;
  • requisitos de report tão complexos que são quase impossíveis de cumprir.

E ainda assim, em teoria, impostos poderiam ser pagos em cripto normalmente. Alguns governos até permitem. Mas então surgem novos problemas:

  1. Se a cripto for privada, é realmente difícil rastrear e tributar corretamente.
  2. Se a cripto for pública, então cidadãos pagadores de impostos poderiam ver exatamente para onde cada satoshi do seu pagamento vai. Na verdade, você poderia projetar um sistema onde os impostos só pudessem ser gastos de maneiras pré-aprovadas por cada contribuinte.

Isso seria verdadeira fiscalização pública — e é algo que muito poucas pessoas no poder estão dispostas a permitir. Afinal, poder significa que você controla os outros, não o contrário.

Então é muito mais simples fingir que cripto é totalmente irrestrita e que quem a usa está escondendo renda.

Concorrência com Moedas Digitais Emitidas pelo Governo

Transparência demais também não é bem-vinda. Por isso a maioria dos governos não usa blockchains públicas ao lançar seu próprio dinheiro digital — eles constroem sistemas semi-privados onde apenas agências autorizadas podem ver transações ou escrever contratos inteligentes.

A mensagem é clara: dinheiro digital é ótimo — mas só se for emitido pelo Estado. Então quando países restringem cripto para abrir espaço às moedas digitais de bancos centrais (CBDCs), eles não estão atacando as falhas da cripto — estão atacando sua independência. Nesses casos, o problema não é o que a cripto é, mas quem a emite.

Claro, ninguém diz: “Estamos proibindo cripto porque ela compete com nosso dinheiro.” Em vez disso, dizem coisas como: “Estamos proibindo pagamentos em cripto porque temos uma moeda oficial.”

Isso me lembra um velho mito dos primeiros dias do Bitcoin — que Bitcoin era ilegal porque não era moeda de curso legal. A comunidade teve uma resposta inteligente resposta: “Frangos também não são moeda de curso legal, mas trocar frangos por outras coisas não é ilegal.”

E é verdade — só porque existe uma moeda nacional não significa que formas alternativas de pagamento sejam automaticamente ilegais.

Mas em alguns países onde pagamentos em cripto são proibidos, surge um paradoxo estranho: você pode ainda trocar patos por galinhas — mas não galinhas por Bitcoin, ou Bitcoin por patos. Ainda mais curioso, em muitos desses mesmos países, exchanges cripto-para-cripto permanecem legais.

Então você pode ir ao rabbit.io desses países e trocar Bitcoin por Monero, ou USDT por USDC — e isso é totalmente legal. Muitas pessoas fazem isso. O que me deixa coçando a cabeça: por que algumas exchanges são proibidas e outras permitidas? Qual é a lógica?

Claro, essas não são todas as razões que os governos dão ao restringir ou proibir cripto. Há muitas outras — algumas risíveis para entusiastas de cripto, outras bem sérias e que merecem atenção.

Cobrirei o restante na Parte II, que sai aqui em exatamente uma semana.